quarta-feira, 18 de julho de 2012

CASTIDADE



                                               
LOCAL: Capela Beato João Paulo II
A VIRTUDE DA CASTIDADE

“A castidade - a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote - é uma triunfante afirmação do amor.” (São Josemaria Escrivá).
É de suma importância ver a castidade como afirmação de amor, não meramente como negação do pecado da luxúria.
A castidade nos é dada como dom do Espírito Santo, primícia da Glória Eterna. Não é, portanto, como nos lembra o santo já citado, um fardo pesado, mas uma coroa triunfal para aqueles que se decidirem com firmeza a ter a vida limpa.
“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados‖ (Ef 5,1), é o que pede São Paulo nas Sagradas Escrituras. O mesmo afirma a Igreja, com seu Magistério infalível: ―todo batizado é chamado à castidade. O cristão se vestiu de Cristo‘, modelo de toda castidade. Todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta segundo seu específico estado de vida. No momento do Batismo, o cristão se comprometeu a viver sua afetividade na castidade.”‖(Catecismo da Igreja Católica, 2348).

A VIVÊNCIA DA CASTIDADE

Adolph Tanquerey, em seu tratado de Teologia Ascética e Mística, A Vida Espiritual Explicada e Comentada, descreve quatro graus de prática da virtude castidade.
- O primeiro consiste em evitar consentir em qualquer pensamento, imaginação, sensação ou ação contrária à virtude.
- O segundo, indo além do apenas não consentir, busca afastar tais coisas, imediata e energicamente, não permitindo qualquer coisa que possa deslustrar o brilho desta virtude.
- Já no terceiro, adquirido após muita prática do amor de Deus, domina-se os pensamentos e sentidos a tal ponto que se pode falar sobre questões relativas à castidade aberta e serenamente, com grande paz.
- Por fim, à alguns poucos santos, por privilégio especial, é concedido não terem qualquer movimento desordenado. Por estes devemos dar glória ao Senhor, que manifesta sua grandeza e bondade com estas graças especiais dadas a poucos.

Podemos separar a vivência da castidade em três diferentes formas:

Castidade dos noivos

Afirma o Catecismo (2350): “Os noivos são convidados a viver a castidade na continência. Nessa provação eles verão uma descoberta do respeito mútuo, urna aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem ambos da parte de Deus. Reservarão para o tempo do casamento as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade.”
A castidade na continência significa abster-se da relação sexual e dos prazeres sexuais desordenados até o matrimônio.

Castidade dos esposos

Afirma o Catecismo (2367-68): “A fidelidade exprime a constância em manter a palavra dada. Deus é fiel. O sacramento do Matrimônio faz o homem e a mulher entrarem na fidelidade de Cristo à sua Igreja. Pela castidade conjugal, eles testemunham este mistério perante o mundo.
Um aspecto particular desta responsabilidade diz respeito à regulação da procriação. Por razões justas, os esposos podem querer espaçar os nascimentos de seus filhos. Cabe-lhes verificar que seu desejo não provém do egoísmo, mas está de acordo com a justa generosidade de uma paternidade responsável. Além disso, regularão seu comportamento segundo os critérios objetivos da moral.”

- Fidelidade
Sobre isso são de muito proveito as palavras do Santo Padre, o Papa Bento XVI, quando se encontrou com os jovens no Brasil. Disse-lhes: “Tende, sobretudo, um grande respeito pela instituição do Sacramento do Matrimônio. Não poderá haver verdadeira felicidade nos lares se, ao mesmo tempo, não houver fidelidade entre os esposos. O matrimônio é uma instituição de direito natural, que foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento; é um grande dom que Deus fez à humanidade. Respeitai-o, venerai-o. Ao mesmo tempo, Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado, pois a vida conjugal que, por disposição divina, está destinada aos casados é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e fora do matrimônio, um baluarte das vossas esperanças futuras.”

- Procriação
O Papa João Paulo II afirmou a totalidade da doação mútua que deve ter o casal: “esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais.
Assim sendo, todo ato que vise por vias artificiais impedir o fim procriativo do ato conjugal, é grave ofensa a Deus, por desvirtuar o fim primordial desta união, impresso pelo próprio Deus desde a criação, que é a geração de filhos. Aos esposos é apenas lícito espaçar o nascimento dos filhos por justa causa, o que se dará somente através dos meios naturais que dispõem. Isso exigirá, certas vezes, períodos de continência, não deixando um pesado fardo apenas sobre um dos cônjuges. Exige cumplicidade, amor e respeito, fortalecendo os laços do matrimônio, que não se resumem ao ato sexual, “o que não conseguirá senão quem houver tomado o hábito de subordinar o prazer ao dever e de buscar na recepção freqüente dos sacramentos remédio para os apetites violentos da concupiscência.”

- A graça da castidade matrimonial
Para assegurar a vivência da castidade, contam os esposos com as graças específicas concedidas pelo Sacramento do Matrimônio. Além disso, devem buscar a prática conjunta de uma verdadeira devoção, especialmente através da oração em comum, pois por meio da oração poderão obter graças para superar todas as dificuldades e para nutrir eficazmente esta e todas as demais virtudes.
Tudo isso se resume nas palavras de São Paulo, ao dizer que a relação entre os esposos deve ser como a de Cristo com sua Igreja (Cf. Ef 5, 22-30). Que as mulheres se submetam aos seus maridos, não numa relação de escravidão, mas de confiança e amor, tal qual a Igreja se submete a Cristo. E que o marido se entregue por sua esposa, e a ame como Cristo amou a Igreja.

Celibato

Muitos são levados por Deus a abrirem mão deste bem que é o matrimônio por algo muito maior. São aqueles que “se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19,12). Neste sentido, continua o Papa Paulo VI na Encíclica acima citada: “Mas Cristo, Mediador dum Testamento mais excelente (Hb 8,6), abriu também novo caminho, em que a criatura humana, unindo-se total e diretamente ao Senhor e preocupada apenas com Ele e com as coisas que lhe dizem respeito (1Cor 7,33-35), manifesta de maneira mais clara e completa a realidade profundamente inovadora do Novo Testamento
“A sagrada virgindade e a perfeita castidade consagrada ao serviço de Deus contam-se sem dúvida entre os mais preciosos tesouros deixados como herança à Igreja pelo seu Fundador‖ (Sua Santidade o Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas). Desde os primeiros cristãos, este tesouro foi cultivado, havendo abundantes testemunhos dos Santos Padres sobre sua importância. Ele é guardado não somente por sacerdotes e religiosos, mas por uma legião de leigos.
A entrega da virgindade a Deus encontra fundamento nas palavras de Nosso Senhor, quando feita “por amor do Reino dos Céus (Mt 19,12). Desta forma, como já nos falava São Paulo, pode o cristão cuidar inteiramente das coisas de Deus, sem que fique divido com os cuidados que requer a vida conjugal (Cf. 1Cor 7,32-35).
É certo que o matrimônio é um bem, ou jamais teria sido elevado à dignidade sacramental. Entretanto, a virgindade ou celibato são mais excelentes que o matrimônio, porque é da sua consagração a Deus que vem sua dignidade, e não de si mesmos. Todos devemos buscar a fuga do pecado e a prática das virtudes, mas abrir mão de um ato lícito e bom, como é o matrimônio e a geração de filhos, encontra maior mérito diante de Deus. São “duas obras, da qual uma é boa e outra melhor‖, e ―a glória deste maior bem não se baseia em que se evita o pecado do matrimônio, mas pelo fato de ultrapassar o bem do matrimônio‖(AGOSTINHO, Santo: A Santa Virgindade. São Paulo: Paulus, 2000. p. 120 e 123).
Isso também decretou o Sacrossanto Concílio de Trento, ao estabelecer que “se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor ou mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema‖ (Denzinger 1810, Concílio de Trento, Sess. XXIV, cân.10).
Assim, o dom da procriação não é vital ao ser humano, não constituindo uma necessidade. A perfeita castidade abstém-se deste dom, vivendo a perpétua continência, tendo em vista ocupar-se mais do bem divino. E nisso auxilia a constante educação do corpo, para que tenha somente o necessário e nunca atraiçoe, como meio para exercitar o controle de si e poder viver fielmente neste estado.
“O coração do homem é feito para amar; o sacerdócio ou o estado religioso não nos tira este lado afetuoso da nossa natureza, mas ajuda-nos a sobrenaturalizá-los. Se amarmos a Deus com toda a alma, se amarmos a Jesus sobre todas as coisas, sentiremos muito menos o desejo de nos expandir sobre as criaturas. [...] Em presença daquele que possui a plenitude da beleza, da bondade e do poder, todas as criaturas desaparecem e não têm encanto‖ (TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007. p. 580).
  
PECADOS CONTRA A CASTIDADE SEGUNDO O CATECISMO

A luxúria é um desejo desordenado ou um gozo desregrado do prazer venéreo. O prazer sexual é moralmente desordenado quando é buscado por si mesmo, isolado das finalidades de procriação e de união.
Por masturbação se deve entender a excitação voluntária dos órgãos genitais, a fim de conseguir um prazer venéreo. "Na linha de uma tradição constante, tanto o magistério da Igreja como o senso moral dos fiéis afirmaram sem hesitação que a masturbação é um ato intrínseca e gravemente desordenado." Qualquer que seja o motivo, o uso deliberado da faculdade sexual fora das relações conjugais normais contradiz sua finalidade. Aí o prazer sexual é buscado fora da "relação sexual exigida pela ordem moral, que realiza, no contexto de um amor verdadeiro, o sentido integral da doação mútua e da procriação humana".
Para formar um justo juízo sobre a responsabilidade moral dos sujeitos e orientar a ação pastoral, dever-se-á levar em conta a imaturidade afetiva, a força dos hábitos contraídos, o estado de angústia ou outros fatores psíquicos ou sociais que minoram ou deixam mesmo extremamente atenuada a culpabilidade moral.
A fornicação é a união carnal fora do casamento entre um homem e uma mulher livres. É gravemente contrária à dignidade das pessoas e da sexualidade humana, naturalmente ordenada para o bem dos esposos, bem como para a geração e a educação dos filhos. Além disso, é um escândalo grave quando há corrupção de jovens.
A pornografia consiste em retirar os atos sexuais, reais ou simulados, da intimidade dos parceiros para exibi-los a terceiros de maneira deliberada. Ela ofende a castidade porque desnatura o ato conjugal, doação íntima dos esposos entre si. Atenta gravemente contra a dignidade daqueles que a praticam (atores, comerciantes, público), porque cada um se torna para o outro objeto de um prazer rudimentar e de um proveito ilícito, Mergulha uns e outros na ilusão de um mundo artificial. É uma falta grave. As autoridades civis devem impedir a produção e a distribuição de materiais pornográficos.
A prostituição vai contra a dignidade da pessoa que se prostitui, reduzida, assim, ao prazer venéreo que dela se obtém. Aquele que paga peca gravemente contra si mesmo; viola a castidade à qual se comprometeu em seu Batismo e mancha seu corpo, templo do Espírito Santo. A prostituição é um flagelo social. Envolve comumente mulheres, mas homens, crianças ou adolescentes (nestes dois últimos casos, ao pecado soma-se um escândalo). Se é sempre gravemente pecaminoso entregar-se à prostituição, a miséria, a chantagem e a pressão social podem atenuar a imputabilidade da falta.
O estupro designa a penetração à força, com violência, na intimidade sexual de uma pessoa. Fere a justiça e a caridade. O estupro lesa profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade, à integridade física e moral. Provoca um dano grave que pode marcar a vítima por toda a vida. É sempre um ato intrinsecamente mau. Mais grave ainda é o estupro cometido pelos pais (incesto) ou educadores contra as crianças que lhes são confiadas.
A homossexualidade designa as relações entre homens e mulheres que sentem atração sexual, exclusiva ou predominante, por pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade se reveste de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas. Sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a tradição sempre declarou que "os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados". São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados.
Os pecados contra a castidade são matéria grave.

                                                       REC – Reflexões e Estudos CATÓLICOS (18/07/2012)


quinta-feira, 5 de julho de 2012

SANTOS DOUTORES


                                                                                  LOCAL: Capela Beato João Paulo II
TEMA: SANTOS DOUTORES

                                O QUE SIGNIFICA SER DOUTOR DA IGREJA?
 Dentre seus milhares de santos e santas, a Igreja, até o presente momento, conferiu (desde 1298) apenas a trinta e três deles o título de “Doutor da Igreja”. A honra de ser Doutor da Igreja ultrapassa as linhas acadêmicas, pois diz respeito à vivência de uma rica espiritualidade que, de alguma maneira, contribuiu para que a Igreja compreendesse melhor o Mistério.
Ao longo de sua história, a Igreja contou com inúmeros exemplos de santidade e intimidade com Deus. No entanto, alguns destes santos se destacaram por terem vivenciado uma experiência espiritual tão profunda a ponto de conceder a Igreja, através de seus escritos e pensamentos, uma nova visão sobre determinada parte dos mistérios de Deus. Segundo o Papa João Paulo II, quando o Magistério proclama alguém Doutor da Igreja, tem em vista indicar a todos os fiéis que a doutrina professada e proclamada por uma determinada pessoa pode ser um ponto de referência, não só porque está em conformidade com a verdade revelada, mas também porque traz nova luz acerca dos mistérios da fé, uma compreensão mais profunda do mistério de Cristo.

                              ALGUNS EXEMPLOS DE SANTOS DOUTORES
 Santo Éfrem
 Este Doutor da Igreja, nascido no ano de 306 na cidade de Nisibi, atual Turquia, se caracteriza pela sua incrível capacidade de conciliar poesia e teologia. Por este motivo, ficou conhecido como “harpa do Espírito Santo”. O Papa Bento XVI afirmou a seu respeito: “Ao aproximar-nos de sua doutrina, temos de insistir desde o início nisso: ele faz teologia de forma poética. A poesia lhe permite aprofundar na reflexão teológica através de paradoxos e imagens. Ao mesmo tempo, sua teologia se torna liturgia, se torna música: de fato, era um grande compositor, um músico”. Suas poesias eram tão envolventes que se espalharam por todo o Oriente. Somente à Virgem Maria dedicou mais de vinte poemas.
Era diácono quando morreu em 373, e foi declarado Doutor da Igreja no ano de 1920 pelo Papa Bento XV.

Santo Agostinho
Nascido no ano de 354, em Tagaste, na Argélia, Santo Agostinho é um ícone da filosofia não só para os católicos como para todos os estudiosos da religião. Converteu-se ao cristianismo devido às orações e apelos de sua mãe, Santa Mônica e, desde então, tornou-se um dos maiores pensadores da era cristã. Foi ordenado bispo e até hoje é conhecido como o “Doutor da Graça”, tão profundas são suas reflexões sobre o tema. “Convertido a Cristo, que é verdade e amor, Agostinho o seguiu durante toda a vida e se converteu em um modelo para todo ser humano, para todos nós na busca de Deus”, disse o Papa Bento XVI a respeito deste santo, que é seu santo de devoção.
Santo Agostinho deixou célebres escritos, dentre eles, a famosa autobiografia “Confissões”, onde narra em perspectiva teológica toda sua vida desde a concepção.
Agostinho, que antes de sua conversão abraçara diversas correntes filosóficas, combateu muitas heresias após se aprofundar no conhecimento de Cristo, dada sua enorme capacidade intelectual.
Um dos escritos mais belos do santo é o poema “Tarde te amei”, que praticamente resume sua história:
“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!
Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira.
Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.
Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz...”

Conta a Tradição que, certa vez, Santo Agostinho caminhava à beira mar pensando sobre o Mistério da Santíssima Trindade, quando avistou um menino que, com uma concha, colocava água num buraquinho que havia feito na areia. Aproximando-se, Agostinho perguntou: “Que estais fazendo?”. O menino lhe respondeu: “Estou colocando o mar nesse buraco”. “Tu não percebes que isso é impossível mesmo que trabalhes toda a vida? O mar é infinitamente grande. Jamais o irás conseguir colocar aí todo dentro desse pequeno buraco…”, disse o santo. Então, o menino, que na verdade era um anjo, lhe respondeu: “É mais fácil colocar toda a água do mar aqui dentro deste buraco que o homem conseguir entender o mistério da Santíssima Trindade”.

São Tomás de Aquino
Chamado de “Doutor Angélico”, São Tomás de Aquino é considerado pela Igreja como o “mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios”. Para se ter uma ideia da importância de seus escritos para o estudo teológico, basta saber que durante o Concílio de Trento sua obra mais importante, a “Suma Teológica” foi colocada ao lado da Sagrada Escritura para simbolizar que era à luz da filosofia de São Tomás que a Bíblia deveria ser interpretada.
Nascido numa família rica no ano de 1224, deixou tudo para se tornar religioso. Apesar de muito concentrado nos estudos acerca de Deus, não deixava de se dedicar à vivência da espiritualidade. Por vezes, ao se deparar com alguma questão difícil a respeito de Deus, colocava sua cabeça dentro de um sacrário como que para ser iluminado pelo Senhor. Profundamente eucarístico, Tomás de Aquino escreveu diversos hinos de adoração. Quando o Papa Urbano IV criou a Festa de Corpus Christi, pediu que São Tomás de Aquino e São Boaventura escrevessem, cada um, o hino a ser proclamado na solenidade. No dia da apresentação, São Boaventura, depois de ouvir os versos feitos por Tomás, simplesmente rasgou o poema que tinha escrito em sinal de profunda admiração.
O Papa Bento XVI refere-se a São Tomás recordando um dos acontecimentos mais marcantes de sua vida: “A vida e o ensinamento de São Tomás de Aquino poderia se resumir em um episódio apanhado pelos biógrafos antigos. Enquanto o santo, como era seu costume, estava em oração perante o crucifixo, pelo início da manhã na Capela de São Nicolau, em Nápoles, Domingo de Caserta, o sacristão da igreja, sentiu desenvolver-se um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se o que havia escrito sobre os mistérios da fé cristã estava correto. E o Crucifixo respondeu: ‘Tu tens falado bem de mim, Tomás. Qual será tua recompensa?’. E a resposta que Tomás deu é a que nós também, amigos e discípulos de Jesus, sempre quisemos dizer: ‘Nada mais que Tu, Senhor’”.

Santa Catarina de Sena
Nasceu em Sena, na Itália, no ano de 1347, uma época em que a Igreja atravessava um período muito difícil. Santa Catarina, que figura entre as três mulheres doutoras da Igreja, era analfabeta. Seus escritos e cartas eram ditados e então enviados às autoridades, papas e seguidores. As extraordinárias experiências místicas de Catarina conferiram-lhe o título de Doutora. Sua obra: “O Diálogo”, apresenta a vida espiritual do homem em forma de conversas entre a alma humana e Deus Pai. Desde pequena Catarina tinha visões e fazia penitências e, aos 16 anos, entrou para a Ordem Terceira de São Domingos. Sofria de muitas doenças e praticamente não se alimentava, com exceção da Eucaristia.
Santa Catarina de Sena era privilegiada com o dom especial de sentir o denominado "horror ao pecado". Recair em alguma falta ou ofender a Deus eram-lhe mais repugnantes que qualquer outra coisa. Para ela, era preferível acordar com o corpo coberto de lepra que ofender de alguma maneira o amor de Deus. Pela graça, sentia até mesmo mau cheiro quando se deparava com orgulho, amor próprio, concupiscências. O pecado era para ela mais repugnante que qualquer podridão física, de modo que os sentia tão intensamente a ponto de chegar ao desmaio.
Um dos episódios mais impressionantes da vida da santa aconteceu quando tinha apenas 20 anos. Ela, em oração, durante o carnaval de 1367, pedia incessantemente a Cristo: "Casa comigo na fé!". Então, eis que lhe apareceu o Senhor e lhe disse: "Agora que os outros estão a divertir-se eu estabeleço celebrar contigo a festa da tua alma". Logo após, apareceu então a corte celeste, com os santos que Catarina mais amava. A Virgem Maria, ali presente, pegou então a mão da jovem e a uniu à mão de seu Filho. Jesus, então, coloca no dedo de Catarina um anel luminoso (que ela, e somente ela, continuou a ver durante toda sua vida) e disse-lhe: "Eu te esposo a Mim na fé, a Mim o teu Criador e Salvador. Conservarás imaculada esta fé enquanto não vieres para o céu celebrar Comigo as bodas eternas". Estava selada a aliança. Observando este casamento místico, compreende-se melhor de onde Catarina retirava suas inspirações. Seus escritos extremamente corajosos desafiavam a própria Igreja a rever algumas atitudes. Catarina de Sena é a prova maior que um Doutor da Igreja é qualificado pela graça divina, sendo o conhecimento acadêmico, neste caso, totalmente secundário.

Santa Teresa de Lisieux
Conhecida também como Santa Teresinha do Menino Jesus, é uma das mais populares santas do mundo. Nascida em 1873 em Aleçon, na França, entrou para a Ordem Carmelita com apenas 15 anos. Foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II em 1997 e é a mais jovem de todos os Doutores. Viveu apenas 24 anos, mas deixou um legado de ricas experiências espirituais. Desenvolveu a chamada "infância espiritual", percurso por onde vivia sua fé fazendo-se uma criança nos braços do Pai. Mesmo sem nunca ter saído dos muros do Carmelo, é considerada padroeira das Missões, pois alcançou toda a Igreja, especialmente os sacerdotes, com sua intercessão ainda em vida. Em sua autobiografia, "História de uma Alma", Teresa revela-se uma jovem humilde diante de Deus, sempre disposta a fazer dos pequenos sacrifícios, vias para agradar a Deus e elevar sua alma à perfeita santidade.
Muito admirada por toda a Igreja, Teresinha já foi considerada pelo Papa Pio X como "a maior santa dos tempos modernos".

                                      OS 33 DOUTORES DA IGREJA
      1.   Santo Afonso de Ligório
2.   Santo Agostinho
3.   Santo Alberto Magno
4.   Santo Ambrósio
5.   Santo Anselmo
6.   Santo Antônio de Pádua
7.   Santo Atanásio
8.   São Basílio Magno
9.   São Beda Venerável
10. São Bernardo
11. São Boaventura
12. Santa Catarina de Sena
13. São Cirilo de Alexandria
14. São Cirilo de Jerusalém
15. Santo Efrém
16. São Francisco de Sales
17. São Gregório Magno
18. São Gregório Nazianzeno
19. Santo Hilário de Poitiers
20. Santo Isidoro
21. São Jerônimo
22. São João Crisóstomo
23. São João da Cruz
24. São João Damasceno
25. São Leão Magno
26. São Lourenço Brindsi
27. São Pedro Canísio
28. São Pedro Crisólogo
29. São Pedro Damião
30. São Roberto Belarmino
31. Santa Teresa de Ávila
32. Santa Teresa de Lisieux
33. São Tomás de Aquino

                                                  NOVOS DOUTORES
No próximo dia 7 de outubro, o Papa Bento XVI irá nomear dois novos santos doutores: São João D’Ávila e Santa Hildegarda de Bingen.

                                                   REC – REFLEXÕES E ESTUDOS CATÓLICOS – 04/07/2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

PATRÍSTICA


                                                                                                  LOCAL: Capela Beato João Paulo II
TEMA: PATRÍSTICA

                                          O QUE É PATRÍSTICA? 
O termo técnico Patrística aplica-se à era dos Padres da Igreja, sua época e suas obras.
O título cristão de "Pai/Padre" aplica-se aos homens que foram considerados Pais espirituais dos Cristãos. Foram homens que ouviram a pregação dos Apóstolos, foram seus discípulos, por eles instituídos Bispos da Igreja e guardavam de cabeça a doutrina apostólica. Após a morte dos Santos Apóstolos, eram considerados a única referência segura quanto à Sã Doutrina, tornando-se os novos Pais espirituais dos cristãos, não só pela pregação mas também porque através do batismo inseriam as pessoas na Igreja.
A fé transmitida pelos Santos Padres gozava de imensa credibilidade e foi base para a teologia da Igreja.
O estudo da fé dos Santos Padres é de fundamental importância para todo cristão que deseja estar posse de fé comum da Igreja Primitiva. Nosso Senhor Jesus Cristo orou ao Pai pela união dos Cristãos (cf. Jo 17, 6-24 ). Assim, todo cristão tem a obrigação de buscar a unidade da fé; e o primeiro passo para isto é conhecendo a antiga fé dos cristãos, deixada pelos Santos Apóstolos e assegurada pelos Pais da Igreja. Passo seguro para a unidade dos cristãos é estar de posse do que nos era comum, ter conhecimento e professar a fé da Igreja indivisa.
Comete grave erro todo aquele que se nega a professar a antiga fé, depósito precioso deixado pelos Santos Apóstolos e tão bem defendido pelos Santos Padres.

                                 QUEM FORAM OS SANTOS PADRES?
 A Igreja conta com 93 Santos Padres.
Chamamos de «Padres da Igreja» aqueles grandes homens da Igreja, aproximadamente do século II ao século VII, que foram no Oriente e no Ocidente como que «Pais» da Igreja, no sentido de que foram eles que firmaram os conceitos da nossa fé, enfrentaram muitas heresias e, de certa forma foram responsáveis pelo que chamamos hoje de Tradição da Igreja; sem dúvida, são a sua fonte mais rica.
Alguns foram papas. A maioria eram bispos. Mas havia também sacerdotes, diáconos e até leigos. Podemos tomar como exemplo:
S. Clemente de Roma (†102), Papa de Roma (88 - 97)
Santo Inácio de Antioquia (†110)
São Policarpo (†156)
Orígenes de Alexandria (184 - 254)
Tertuliano de Cartago (†220)
São Cirilo de Jerusalém, bispo (315 - 386)
São Jerônimo ( 348 - 420), presbítero, Itália
São João Crisóstomo - (349 - 407), bispo
Santo Agostinho - (354 - 430), bispo
São Leão Magno (400 - 461), papa de Roma - Toscana, Itália

                     LIGAÇÃO ENTRE PATRÍSTICA E TRADIÇÃO DA IGREJA
 A Sagrada Tradição não foi conservada pela Igreja apenas oralmente, mas também foi sendo vertida por escrito pelas gerações que sucederam os santos apóstolos.
Mesmo durante a era apostólica, muitos já queriam se separar da Igreja, pregando um Evangelho diferente. Mas todas estas heresias caíram por terra, por causa do testemunho vivo dos Apóstolos. Com a morte dos Apóstolos, seus legítimos sucessores se preocuparam em escrever aquilo que os Apóstolos não deixaram por Escrito, para combater heresias nascentes, e para deixar para a posteridade a memória cristã.
Veja um testemunho primitivo:
"Em primeiro lugar [Inácio de Antioquia], acautelava-se a conservar firmemente a tradição dos apóstolos que, por segurança, julgou necessário fixar ainda por escrito. Estava já prestes a ser martirizado." (História Eclesiástica Livro III, 36,4. Eusébio de Cesaréia, + ou - 317 d.C).
Ou seja, graças aos Santos Padres temos por escrito o ensinamento transmitido pelos Apóstolos, que é a base da Tradição da Igreja.
A Igreja Católica não se guia apenas pela Bíblia (a Revelação escrita), mas também pela Revelação oral que chegou até nós. Sem esta última, nem mesmo a Bíblia existiria como a temos hoje, já que ela foi berçada e redigida pela Igreja.
“Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados” (Dei Verbum, 8). Como então, dispensar a Tradição na sua interpretação? Como aceitar a existência da fruta e negar a árvore que a gerou?
O Catecismo (66) ensina que: “embora a Revelação já esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos.”
Assim, afirma o Concílio Vaticano II, através do documento Dei Verbum: “[...] não é através da Escritura apenas que a Igreja consegue sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado. Por isso ambas – Escritura e Tradição – devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência.”

                                      O LEGADO DOS SANTOS PADRES
 Os escritos dos Santos Padres da Igreja dividem-se basicamente em dois tipos:
1) Escritos que relembram a Tradição recebida dos apóstolos e a defendem contra as heresias. Nesta primeira categoria encontram-se escritos eclesiológicos, sobre o batismo, sobre o ministério dos pastores, sobre o matrimônio, etc.
2) Tratados teológicos. Quando os cristãos necessitavam em desenvolver um entendimento melhor da fé, muitos tratados teológicos foram propostos, até que se chegasse a uma solução definitiva. Nesta segunda categoria encontram-se escritos que ajudaram os sucessores dos apóstolos a traçarem os rumos teológicos do Cristianismo.

Os escritos cristãos desenvolveram desde o fim do séc. I um papel central e importante, em muitos aspectos fundamentais para a vida dos cristãos e para a doutrinação do cristianismo nos setores litúrgico, canônico, doutrinário e teológico ao longo dos séculos, estes escritos sejam eles de caráter canônico (Bíblico) ou não, favoreceram a vida e prática dos cristãos em comunidade.
As obras dedicadas à apologética, doutrina, liturgia, e principalmente as que ajudaram na elaboração e doutrinação de dogmas e ensinos cristãos a luz das Escrituras e da tradição Patrística, foram de extrema importância para a cristianização das verdades não explícitas biblicamente e comprovadas pela Tradição.

                                            A “PROVA PATRÍSTICA”
Devido à importância que os Santos Padres tinham como testemunhas privilegiadas do Depositum Fidei (Depósito da Fé) da Santa Igreja, esta desenvolveu o conceito da "prova patrística". 
A prova patrística foi utilizada pela primeira vez por São Basílio Magno, que acrescentou em sua obra "O Espírito Santo" uma lista de Padres da Igreja para apoiar sua opinião doutrinária sobre o Espírito Santo. Esta obra de São Basílio serviu de base para o Concílio de Constantinopla declarar o dogma da Divindade do Espírito Santo. Vemos que foi a fé dos Santos Padres que foi usada para o fundamento da fé que hoje temos na Divindade do Espírito Santo, pilar fundamental da doutrina da Santíssima Trindade.
Santo Agostinho serve-se também da prova patrística a partir de 412, especialmente na controvérsia contra o pelagianismo.
São Cirilo de Alexandria também se utilizou dela durante o Concílio de Éfeso, lendo as obras dos Santos Padres, fazendo com que o Sínodo aceitasse oficialmente o título Theotókos (Mãe de Deus) para a Virgem Maria.
O uso constante da prova patrística como verificação da autenticidade da fé fez com que São Vicente de Lérins criasse o clássico conceito de "magistri probabiles" em seu Communitorium (434), desenvolvendo a teoria da prova Patrística.

                             PATROLOGIA: MOTIVO DE CONVERSÃO
A Patrologia trata necessariamente de um ramo da teologia cujo núcleo essencial são dos Padres da Igreja e seus escritos no sentido eclesial, assim é a ciência que trata a literatura cristã antiga em todos os seus aspectos e com todos os métodos apropriados.
Muitos pastores evangélicos tem se convertido ao catolicismo através do estudo das obras dos Santos Padres (patrologia). Podemos dar como exemplo o escritor e ex-pastor Scott Hann (autor dos livros “O banquete do Cordeiro” e “Todos os caminhos vão dar em Roma”), que aponta o estudo dos Santos Padres como fundamento essencial de sua conversão à Igreja Católica.


TRECHO DA CARTA APOSTÓLICA PATRES ECCLESIAE DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II

"Na verdade; foram "padres" ou pais da Igreja porque deles, mediante o Evangelho, recebeu ela a vida. E também seus construtores, porque deles — sobre o fundamento único colocado pelos Apóstolos, que é Cristo — a Igreja de Deus foi edificada nas suas estruturas fundamentais.

Da vida recebida dos seus pais ainda hoje vive a Igreja; e sobre as estruturas postas pelos seus primeiros construtores ainda hoje é edificada, na alegria e na pena do seu caminho e do seu trabalho quotidiano.

Padres ou pais foram, e pais continuam a ser para sempre: eles mesmos, de fato, são estrutura estável da Igreja, e, em favor da Igreja de todos os séculos, exercem uma função perene. De maneira que todo o anúncio e magistério seguinte, se quer ser autêntico, deve pôr-se em confronto com o anúncio e o magistério deles; todo o carisma e todo o ministério deve beber na fonte vital da paternidade deles; e toda a pedra nova, acrescentada ao edifício santo que todos os dias cresce e se amplifica, deve colocar-se nas estruturas já por eles postas e a elas soldar-se e ligar-se."

                                                              REC – REFLEXÕES E ESTUDOS CATÓLICOS – 27/06/2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

FRANCISCANISMO


                                                                                                                                                                                                            LOCAL: CAPELA BEATO JOÃO PAULO II
TEMA: FRANCISCANISMO 
"Francisco, o mundo tem saudades de ti" (Beato João Paulo II)

A ORDEM FRANCISCANA
A Ordem São Francisco teve início em 1209 quando, convertido, estabeleceu para si próprio vida de intensa vivência do Evangelho, em austera mortificação, penitência e  pobreza. A ele, juntaram-se 12 companheiros, com quem estabeleceu as regras iniciais.   Nesta mesma época, animada e decidida a seguir seu exemplo, Santa Clara de Assis foi por São Francisco orientada a ingressar no mosteiro beneditino de Assis e, posteriormente foi convidada a fundar uma congregação feminina,  destinada a irmãs religiosas de vida monástica contemplativa.
Em curtíssimo espaço de tempo, o clima pela devoção e piedade contagiou todos os segmentos da sociedade. Os leigos e mesmo pessoas casadas, movidos pelo espírito franciscano, ardentemente desejavam abandonar-se a Deus, de forma que São Francisco acabou fundando também a Ordem Franciscana Secular,  destinada aos casados, leigos ou pessoas  solteiras. 
O Papa Inocênio III, já em 1209, havia aprovado a Ordem verbalmente, mas foi em 1221 que a regra franciscana recebeu aprovação canônica, firmada pelo Papa Honório III, cuja regra permanece em vigor até os dias atuais.  No decorrer do tempo, a estrutura da congregação dividiu-se em diversas ramificações, canonicamente estudadas e aprovadas, de forma que a Ordem Franciscana, hoje, se subdivide em três.
 
PRIMEIRA ORDEM FRANCISCANA

1. Ordem dos Frades Menores, ou observantes (O.F.M.)
A Ordem dos Frades Menores foi fundada por São Francisco de Assis, no ano de 1209, quando recebeu aprovação verbal do Papa Inocênio III, e cujas regras foram canonicamente aprovadas  pelo  Papa Honório III, em 1221.  Permanecem até hoje inalteradas a observância das normas, que  remontam  as  constituições primitivas;  inclusive, documentos contendo a  regra original com aprovação da Santa Sé, encontram-se cuidadosamente guardadas no Sacro Colégio de Assis, e cuja  cópia encontra-se no Vaticano. 

2. Ordem dos Frades Menores Conventuais (O.F.M.conv)
A Ordem dos Frades Menores Conventuais foi estabelecida em meados do século XIV, precisamente no ano de 1517, como resultado de uma inevitável divisão, causada pela divergência de convicções entre os confrades na Congregação original,  fundada por São Francisco (Ordem dos Frades Menores, ou observantes).  Alguns anos depois,  um outro grupo de frades  separou-se da Ordem dos Frades Menores Conventuais. Tinham por ideal viver estritamente a regra de São Francisco de Assis, dentro do espírito de rigoroso cumprimento da regra original. Estava nascendo a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (1525). Somente no ano de 1619 é que a Santa sé autorizou o grupo a ter governo próprio. 
Apesar das divisões ocorridas naquele período, os franciscanos, pouco depois, longe de estarem divididos ou rivalizados,  juntos cresceram com autonomia própria que, com o pai e fundador comum,   juntos formam a grande família franciscana,  hoje presente no mundo em inúmeras congregações femininas e masculinas, espelhadas no ideal consolidado por São Francisco de Assis.    

3. Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (O.F.M.cap)
A Ordem dos Frades Menores Capuchinhos,  foi idealizada pelo padre Matteo de Bascio, que julgou que o hábito e a regra habitual dos franciscanos, não condizia com o que havia sido idealizado por São Francisco de Assis.  Após formulado o pedido (1525), o Papa Clemente VII (Giulio de Medici) autorizou-os a  usar  um capucho longo e pontudo e  com estilo condizente às convicções primitivas.  No ano de 1528,  o próprio Papa Clemente, desligou-os da hierarquia que os vinculava, em subordinação,  aos franciscanos conventuais, mas a  autonomia eclesiástica com governo próprio só foi estabelecida no ano de 1619, pontificado de Paulo V (Camilo Borghese).

SEGUNDA ORDEM FRANCISCANA
1. Ordem das Irmãs Clarissas

A Congregação das Irmãs Clarissas pertencem à chamada Segunda Ordem  de São Francisco de Assis.  A Ordem São Francisco teve início em 1209 quando, convertido,  estabeleceu para si próprio vida de intensa vivência do evangelho,  em austera mortificação, penitência e  pobreza. A ele, juntaram-se 12 companheiros, com quem estabeleceu as regras iniciais.   Nesta mesma época, animada pelo mesmo espírito , Santa Clara de Assis  ingressou, por intermédio de São Francisco,  no convento Beneditino de Assis. Posteriormente, foi convidada a fundar uma congregação feminina, cujas monjas passaram a ser conhecidas por  Irmãs Clarissas.  A congregação nunca sofreu mudanças e suas regras refletem o espírito franciscano de vida enclausurada e  contemplativa. Foi o próprio São Francisco, auxiliado por Santa Clara, quem  estabeleceu  as regras monásticas para a nova Ordem, onde Santa Clara iria assumiu como Superiora e Fundadora.

2. Ordem das Irmãs Concepcionistas
A Congregação das Irmãs Clarissas Concepcionistas foi fundada por Santa Beatriz da Silva.  Fazia parte da alta corte de Portugal e, quando jovem, sua extrema formosura despertou a cobiça e gerou rivalidades entre os cortesãos.  Provocou a ira da própria rainha que, enciumada, atentou contra a vida dela, trancando-a num cofre fechado, onde dias depois, foi encontrada ilesa.  Era devotíssima de Maria Santíssima e dotada de todas as virtudes cristãs desde a tenra idade. Incomodada pelos tristes acontecimentos, refugiou-se para um mosteiro de monjas beneditinas, onde permaneceu como hóspede por 30 anos, mas nunca ingressou na congregação, apesar de adotar o mesmo modo de vida das contemplativas.
Isabel, a Católica, ao assumir o trono real,  cedeu propriedades à Santa Beatriz,. tendo fundado, com mais doze companheiras, um mosteiro contemplativo em Santa Fé, escrevendo as regras da então Ordem Contemplativa de Concepção Franciscana, daí o nome de "Concepcionistas".  O Papa Inocênio VII aprovou canonicamente as regras no ano de 1489. Dois anos depois foi a bula papal foi levada solenemente da catedral de Toledo até o mosteiro de Santa Fé. Dias depois, Santa Beatriz  caiu gravemente enferma e faleceu naquele mesmo ano, no dia 17 de agosto.

3. Ordem das Irmãs Capuchinhas
A Congregação das Irmãs Clarissas Capuchinhas foi fundada em Nápoles, no século XVI.

(Todas contemplativas enclausuradas, seguidoras de Santa Clara/ São Francisco de Assis)

TERCEIRA ORDEM FRANCISCANA

1. Terceira Ordem Regular (T.O.R.)
A Terceira Ordem Regular (TOR), foi estabelecida em 1250 e é composta exclusivamente por religiosos e sacerdotes, que seguem as regras de suas constituições franciscanas.

2. Terceira Ordem Secular, ou Ordem Franciscana Secular (O.F.S)
À Ordem Terceira Secular, ou Ordem Franciscana Secular (OFS),  fundada em 1221 por São Francisco, agregaram-se também sacerdotes e religiosos, além dos leigos, casados e solteiros, acima mencionados.  Além de muitas outras famílias franciscanas, pertencem à Ordem Terceira Secular (para leigos e casados) a Fraternidade Sacerdotal Franciscana Secular (FSFS), Pequena Família Franciscana (PFF) e JUFRA (Juventude Franciscana).

REPERCUSSÕES DO FRANCISCANISMO
A Igreja Católica já elegeu 12 papas franciscanos.
Entre os anglicanos existem a Comunidade de São Francisco (para mulheres, fundada em 1905), a Sociedade de São Francisco - SSF (para homens, fundada em 1919 nos EUA e em 1934 na Inglaterra) e a Comunidade de Santa Clara (para mulheres, monástica) e também a Ordem Terceira Franciscana para leigos.
No Brasil existe os Irmãos Franciscanos de Canaã, ligada à Irmandade Evangélica de Maria, em Curitiba, e Franciscanos Anglicanos, membros da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil - IEAB.

SÃO FRANCISCO, UM GIGANTE DA SANTIDADE
A humildade de Francisco não era menor que seu espírito de penitência. Não tolerava palavra em seu louvor.  “Não elogieis a ninguém, enquanto não se lhe souber o seu fim. Ninguém é nada mais e nada menos do que é aos olhos de Deus”.
Perguntado por um dos companheiros sobre o conceito que de si próprio fazia, respondeu: “Julgo não haver no mundo pecador mais indigno que eu”;  e continuou:  “Se Deus, em sua misericórdia tivesse dado ao homem mais perverso as  graças que se dignou  proporcionar a mim, não duvideis que este homem seria muito mais grato e piedoso do que eu”. Foi ainda por humildade que se deteve na ordenação sacerdotal, porque se julgava indigno de ser sacerdote.  Tratava os sacerdotes com todo o respeito e dizia: “Se ao mesmo tempo me encontrasse com um Anjo e um sacerdote, eu beijaria em primeiro lugar a mão deste e depois cumprimentaria o Anjo.  Devo mais respeito àquele que segura nas mãos o Corpo Santíssimo de Jesus Cristo."
Que dizer da pobreza que o santo homem observava e dos seus exigia que observassem? Do seu amor a Deus e ao próximo? Da sua devoção à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, à Santíssima Virgem e a outros Santos, e das demais virtudes, cujos exemplos são tão numerosos, que se encheriam livros narrando-os?
Depois da conversão, Francisco renunciou a toda sorte de propriedade.  Sentia prazer em não possuir coisa alguma e sofrer o sacrifício da pobreza.
“A pobreza – dizia – é o caminho da salvação, o fundamento da humildade, a raiz da perfeição. Produz frutos escondidos, mas que se multiplicam de mil maneiras”. A pobreza era sua senhora, rainha, mãe e esposa. A Deus pedia instantemente que fosse sua herança e privilégio.
Na oração, nos transportes do amor, não achava outra expressão, a não ser esta:  “Meu Deus e meu tudo!”  Conversando sobre Deus, refletia-se-lhe no semblante a mais pura alegria. O amor ao próximo impelia-o a servir aos doentes, a socorrer os necessitados, a consolar os aflitos. O desejo de converter os infiéis, de derramar o sangue por amor de Deus, levou-o a empreender penosa viagem até à Síria e apresentar-se ao Sultão de Icônia, como pregador de penitência.
A devoção a Francisco à Sagrada Paixão e morte de Nosso Senhor foi tão extraordinária, que Deus quis recompensá-lo com um milagre inaudito.  Dois anos antes da morte, Francisco praticou, segundo o costume, o jejum quaresmal em preparação à festa de S. Miguel, e para este fim se retirara ao Monte Alverne. No dia da exaltação da Santa Cruz, arrebatado em êxtase,  viu que do céu descia um luminoso Serafim.  O Anjo tinha seis asas e Francisco reconheceu nele a figura de Nosso Senhor crucificado, com as  cinco chagas.  Ao mesmo tempo, o Santo homem  sentiu no lado, nas mãos e nos pés chagas iguais,  que destilavam umas  gotas de sangue. Estes sinais ficaram até a morte. Embora Francisco procurasse escondê-las cuidadosamente,  não o conseguiu.  Foram-lhe vistas no corpo, vivo e morto. Estas chagas causaram-lhe grandes dores, mas Francisco julgou-se venturoso em poder sofrer com o Salvador.
Dois anos depois desta visão, Francisco caiu gravemente doente. Sentindo a morte aproximar-se, fez se transportar para a igreja de Porciúncula onde, deitado sobre o chão, recebeu com muita devoção os santos Sacramentos, entregando logo depois a alma a Deus.
Antes de expirar, recomendou aos irmãos da Ordem a fiel observância da regra e dando-lhes a bênção, disse: “Ficai firmes no temor de  Deus e nele perseverai! Bem-aventurados aqueles que perseveram na obra começada. Vou para Deus e  recomendo-vos à sua benevolência”.
Tendo assim falado, quis que lhe lessem os capítulos da Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, do Evangelho de São João. Terminada esta leitura, começou ele mesmo a recitação do Salmo 141, até as palavras: “Tirai a nossa alma do cárcere, para que eu louve o Vosso nome. Os justos, estão à minha espera, para que me deis a recompensa!” Foram-lhe estas as últimas expressões.
São Francisco morreu no ano de 1226, na idade de 45 anos. Muito antes tivera a revelação do perdão completo dos seus pecados. Em outra ocasião, lhe foi assegurada sua eterna salvação. Embora estas revelações lhe servissem de grande consolo, nem por isto quis atenuar o rigor da penitência e deixar de chorar os pecados.  “Suposto que tivesse cometido o mais leve pecado e  isto só uma vez, motivo teria de sobra de chorá-lo toda a minha vida”.
Muitos e grandes milagres fez São Francisco antes e depois da morte. O Papa Gregório IX canonizou-o, em 16 de julho de 1228.
O corpo de São Francisco repousa debaixo do altar-mor da catedral de Assis. Por uma permissão especial de Deus, aconteceu que, durante seis séculos ficasse ignorado o jazigo das santas relíquias. Em 1818 foram encontradas e autenticamente reconhecidas.
 
OS VALORES DA ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

1. Espiritualidade evangélica
'A vida e a regra' franciscana é o próprio evangelho; vida de conversão para o evangelho.
2. Vida em fraternidade
'Deus me deu irmãos' - a fraternidade, entre irmãos e irmãs, que Deus nos deu, com todas as pessoas e com todas as criaturas.
3. Espiritualidade trinitária
Deus é o Sumo Bem; o Filho nosso irmão; o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. Maria, o modelo: filha, mãe e esposa.
4. Sem nada de próprio
Seguir o Cristo pobre é a condição do nosso caminho. Livre para amar e servir, retirando tudo o que se interpõe entre as pessoas. O modelo é a encarnação do Verbo.
5. A minoridade
'Servo de toda humana criatura'; o serviço do lava-pés; a 'autoridade' evangélica.
6. A espiritualidade do trabalho
A 'graça' de trabalhar; trabalhar com as 'próprias mãos' constrói a fraternidade; trabalhar como menores; trabalhar com 'devoção' afugenta o ócio, inimigo da alma.
7. A contemplação franciscana
O espírito de oração e devoção que abrange toda a vida e a vida toda; rezar sempre e rezar a vida; rezar no mundo e no conflito. O eremitério e a solidão.
8. A evangelização franciscana
Evangelizar e deixar-se evangelizar; o 'evangelho vivo' do seguimento é dom da vocação que se prolonga em missão; a fraternidade é o 'coração' da evangelização.
9. Espiritualidade eclesial e católica
A fraternidade vivida no seio da Igreja é célula eclesial, integrada nos serviços e nos ministérios da Igreja. Católico: experimentar Deus e a sua graça em todo tempo e lugar.
10. A perfeita e verdadeira alegria
Acolher, integrar e transformar o 'negativo' da vida. A cruz, fonte da verdadeira alegria.

SANTA CLARA, FIEL À POBREZA
Em 1215, quando Francisco obrigou Clara a aceitar a Regra beneditina, para cumprir a determinação do IV Concílio de Latrão. Esta Regra previa a posse de bens para o mosteiro.
Para Clara, não se tratava de um detalhe. Aceitar propriedades significava desfigurar todo o projeto. Por isso, buscou uma saída de forma criativa e inusitada. Foi ao papa e lhe pediu uma bula que garantisse ao mosteiro de São Damião o direito de não possuir bens. Inocêncio III achou estranho o pedido daquela jovem de 22 anos. Mas lhe concedeu o documento, que foi chamado de “Privilégio da Pobreza”.

EPISÓDIOS IMPORTANTES DA VIDA DE SÃO FRANCISCO

1181-1182 Nasce Francisco. Em Assis, filho do comerciante burguês Pedro Bernardone e Dona Picá.
1205 Querendo tornar-se cavaleiro, junta-se ao exército papal e vai para a guerra na Apúlia (Puglia). Em Spoleto, tem uma visão em sonho e volta para Assis: “Quem te pode ser mais útil: o senhor ou o servo? Então, por que preferes o servo ao senhor?”
1205 Francisco está num período de muita reflexão e oração. Certa ocasião, vê um leproso que vem em sua direção. Vencendo o horror que tinha por esta doença e pelos seus doentes, vai ao seu encontro e trata-o com carinho. Este evento é registrado pelo próprio Francisco como importantíssimo para a sua conversão.
1205 Rezando na igreja de São Damião, ouve um pedido: “Francisco, vai, reconstrói minha casa que está em ruínas”. Levando a mensagem ao pé da letra, restaura as igrejinhas abandonadas de São Damião, São Pedro e Porciúncula.
1206 Processado pelo pai, Francisco, na praça da cidade e em frente ao bispo devolve-lhe tudo o que tinha e que havia recebido do pai; ficando nu perante todos. “De agora em diante poderei dizer livremente: Pai Nosso que estais nos Céus, não pai Pedro Bernadone.”
1208 Depois de ouvir a explicação do Evangelho do envio apostólico (Mt 10, 1. 5-13), Francisco afirma: “É isto que eu quero!” Deixa as vestes de eremita, passa a usar um hábito rude e torna-se um pregador itinerante. Após algum tempo, recebe os primeiros companheiros.
1209 Francisco escreve uma pequena regra. Vai a Roma com onze companheiros, é recebido pelo Papa Inocêncio III que aprova oralmente a regra.
1211-1212 A comunidade vai crescendo e consolidando-se, instala-se na Porciúncula. Na noite do Domingo de Ramos, Clara foge de casa para seguir a vida de Francisco. Mesmo com a oposição da família, Inês (irmã de Clara)‏ também se junta ao grupo e assim inicia-se a 2ª Ordem.
1219 Os franciscanos empreendem grandes missões no exterior (Alemanha, França, Hungria, Espanha, Marrocos). Francisco vai ao Egito e encontra-se com o Sultão Malek-el-Kamel.
1221 A aprovação do Memoriale Propositi é considerada a fundação da Ordem Franciscana Secular. Na OFS podem ingressar pessoas casadas que desejam seguir a vida franciscana.
1223 O Papa Honório III emite bula aprovando a regra franciscana que estava sendo aperfeiçoada desde 1209 durante capítulos realizados anualmente. Esta regra conhecida como Regra bulada está em vigor até hoje. Também se conhece um texto anterior denominado de Regra não-bulada.
1223 Celebra o Natal com o povo em Greccio diante de um presépio. Por causa desta celebração muitos consideram Francisco de Assis o inventor do presépio.
1224 Francisco e Frei Leão vão ao Monte Alverne para a Quaresma de São Miguel. Na festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro, Francisco vê o serafim alado e crucificado, durante esta visão recebe os estigmas de Jesus Crucificado.
1225 Com uma doença nos olhos, fica junto ao mosteiro de Clara em São Damião. Compõe boa parte do Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas .
1225-1226 Por obediência submete-se a dolorosos tratamentos em Assis, Rieti, Fonte Colombo, Sena e outros locais. Dentre estes tratamentos a cauterização pelo fogo. Sentindo a aproximação da irmã morte, pede para ser levado à Porciúncula, da planície abençoa Assis.
1226 Na Porciúncula dita seu Testamento. 3 de outubro: Percebendo cada vez mais a aproximação da irmã morte, pede para ser colocado nu na terra nua, acaba aceitando usar o hábito do guardião. Pede que leiam o Evangelho da Última Ceia, abençoa os irmãos presentes e futuros, morre cantando.
1228 Gregório IX canoniza-o. 
                                                                                       REC – REFLEXÕES E ESTUDOS CATÓLICOS – 13/06/2012